Sistema Imunológico Comportamental - Parte 1
Quando estudamos Imunologia, aprendemos que há componentes de nossa imunidade inata que fazem parte da “primeira linha de defesa” contra infecções, mas será que podemos considerá-los a primeira linha mesmo?
Muitos animais possuem comportamentos que reduzem sua exposição a patógenos. As formigas contornam seus ninhos com resinas que inibem o crescimento de fungos e bactérias. Os ratos evitam o acasalamento com outros ratos que estejam infectados com protozoários parasitas. Animais de muitos tipos evitam estrategicamente o contato físico com coisas específicas que, com base em pistas sensoriais superficiais, parecem representar algum tipo de risco de infecção.
No nosso caso, possuímos ferramentas modernas - como o uso de preservativos e a vacinação - que permitem as pessoas se envolverem na tomada de decisões racionais. No entanto, muitos outros comportamentos - alguns óbvios e outros não - parecem ser regidos por um conjunto de mecanismos de estímulo-resposta mais antigos e funcionalmente específicos que compõem uma espécie de “sistema imunológico comportamental”, que nada mais é do que o desenvolvimento de mecanismos psicológicos ao longo do processo evolutivo dedicados especificamente à prevenção de infecções.
A pergunta que podemos levantar é: isso é possível? Por que é plausível que tenha surgido esse conjunto específico de mecanismos psicológicos?
O argumento conceitual para a evolução do sistema imune comportamental começa com a suposição de que doenças infecciosas impuseram pressões seletivas sobre populações ancestrais. A veracidade desta suposição não está em dúvida. A presença de patógenos têm sido uma constante em ecologias humanas e pré-humanas por muitos milhões de anos. E essa presença não foi benigna. Estima-se que as doenças infecciosas tenham sido responsáveis por mais mortes humanas do que todas as outras causas de morte combinadas.
Pressões de seleção impostas por patógenos são suficientemente fortes para que mutações genéticas que conferem resistência a doenças específicas possam se disseminar com uma rapidez incomum. Ao longo da história evolutiva humana, essas pressões seletivas resultaram em muitas adaptações fundamentais - incluindo, obviamente, defesas imunológicas sofisticadas. Se a existência do sistema imunológico atesta as pressões de seleção impostas por doenças infecciosas, também levanta uma questão importante que deve ser abordada ao considerar que um sistema imune comportamental também pode ter evoluído.
Nada evolui de graça. Independentemente da intensidade da pressão seletiva, é improvável que um conjunto específico de mecanismos de defesa evolua, a menos que esses mecanismos estejam associados a um conjunto específico de benefícios adaptativos. É plausível que, além das defesas imunológicas, também tenha surgido um conjunto adicional de mecanismos psicológicos que facilitam as defesas comportamentais contra a infecção? Sim, e as razões pertencem a várias deficiências associadas a mecanismos imunológicos.
Primeiro, as respostas imunológicas são caras. Por exemplo, uma resposta imune a uma infecção bacteriana tipicamente envolve algum aumento na temperatura corporal, e essa resposta consome recursos metabólicos substanciais. Um aumento estimado de 13% na atividade metabólica é necessário para aumentar a temperatura do corpo humano em apenas 1 °C. Segundo, respostas imunológicas podem ser temporariamente debilitantes. Muitos sintomas de infecção, como febre e fadiga, não são causados diretamente pelo próprio patógeno invasor, são consequências dos meios que o sistema imunológico possui para combater essa infecção. Terceiro, as defesas imunológicas são meramente reativas, ocorrendo apenas após agentes patogênicos já terem entrado no corpo e começado a causar seus danos.
Devido aos custos e limitações associados às defesas imunológicas, haveria benefícios adaptativos exclusivos na prevenção comportamental da infecção. Mas ainda assim, essa consideração adicional fornece uma racionalidade insuficiente para a evolução desses mecanismos psicológicos. Mais uma vez, nada evolui de graça. Dessa forma, podemos também considerar que é improvável o sistema imune comportamental ter evoluído se, dentro das ecologias ancestrais, uma forma de profilaxia igualmente eficaz fosse facilitada por outros mecanismos psicológicos menos específicos funcionalmente.
Os patógenos causadores de doenças podem sensatamente ser caracterizados como “pequenos predadores”, e assim há a possibilidade da evitação comportamental de patógenos ser governada por mecanismos evolutivamente antigos que protegem contra a predação de modo generalizado. Este sistema de prevenção de predação baseado no medo rege as respostas a uma ampla gama de ameaças corporais (incluindo algumas que objetivamente nem sequer são predadoras, como incêndios florestais e inundações). E voltamos a pergunta inicial: é plausível que tenha surgido um conjunto de mecanismos psicológicos projetados especificamente para promover a defesa comportamental contra infecções?
Sim, e a razão é que embora os patógenos causadores de doenças possam logicamente ser pequenos predadores, eles são funcionalmente diferentes de outras ameaças predatórias. Essas diferenças funcionais surgem do fato de que os patógenos não são apenas pequenos; eles são muito pequenos - pequenos demais para serem percebidos. Na melhor das hipóteses, sua presença pode às vezes ser detectada indiretamente (por exemplo, o cheiro de matéria orgânica que foi consumida por bactérias ou a aparência de uma pessoa infectada). A maioria das outras ameaças à saúde e ao bem-estar humano (incluindo ameaças objetivas predatórias, como animais ferozes e homens com armas, bem como incêndios e inundações) são consideráveis o suficiente para serem avaliadas como ameaças com base em sinais sensoriais indicando tamanho, localização, movimento, e às vezes até mesmo intenção.
Estratégias comportamentais que foram eficazes para mitigar a exposição a outras ameaças podem ter sido inúteis - ou pior que isso - como proteção contra doenças infecciosas. Por exemplo, o comportamento de agrupamento pode fornecer proteção contra ataques predatórios, mas facilita a transmissão de muitos parasitas causadores de doenças. O resultado é que os mecanismos psicológicos que facilitam respostas comportamentais adaptativas a outras formas de ameaça provavelmente não forneceriam profilaxia eficaz contra patógenos. Haveria benefícios adaptativos únicos associados a um conjunto adicional de mecanismos que se desenvolvesse, e é a esse conjunto específico que chamamos de sistema imunológico comportamental.
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