Sistema Imunológico Comportamental - Parte 2
“A ativação do sistema imunológico comportamental está associada ao nojo”
Se o sistema imune comportamental evoluiu como um meio de facilitar respostas comportamentais funcionalmente específicas, ele pode ser considerado um sistema motivacional psicologicamente único. Sistemas motivacionais distintos são tipicamente associados a experiências afetivas características - sede, fome, medo, ciúme e assim por diante. A experiência afetiva associada ao sistema imunológico comportamental é o nojo.
O argumento discutido é que o nojo teria evoluído de uma resposta afetiva mais primitiva que servia para expelir alimentos prejudiciais - que podem estar contaminados com venenos, assim como patógenos - de entrar na cavidade oral de um organismo. Nas populações humanas contemporâneas, o nojo é provocado não apenas pelo sabor do alimento contaminado, mas também pela percepção de muitos tipos diferentes de estímulos que, ao longo da história evolutiva, foram diagnósticos para a presença de patógenos. Entre os mais óbvios, estão produtos corporais que normalmente contêm patógenos (fezes), vetores animais pelos quais patógenos podem ser transmitidos (ratos) e sintomas físicos exibidos por indivíduos que já estão infectados (um ferimento escorrendo, o som de um espirro).
Respostas afetivas a esses tipos de estímulos estão no cerne de evidências empíricas que atestam o papel integral do nojo no sistema imunológico comportamental. Três tipos de evidências são especialmente convincentes. Em primeiro lugar, a repulsa é provocada mais fortemente por esses estímulos do que por estímulos perceptivelmente semelhantes, que são menos propensos a conotar o risco de infecção. Por exemplo, as pessoas ficam mais enojadas com um líquido amarelado - que imita a aparência de produtos corporais como o pus - do que com um líquido idêntico que é azul. Segundo, os estímulos associados a patógenos provocam altos níveis de repulsa, mas não provocam altos níveis de outras emoções negativas, enquanto formas funcionalmente distintas de ameaça - como ameaças predatórias - provocam altos níveis de outras emoções negativas, como medo, mas não provocam muita repulsa. Estes resultados implicam uma ligação funcionalmente específica entre o nojo e a ameaça representada pela infecção do patógeno. Terceiro, a tendência de os estímulos associados a patógenos provocarem nojo é exagerada sob circunstâncias nas quais os benefícios funcionais da prevenção são especialmente grandes, como quando os indivíduos são vulneráveis à infecção. Por exemplo, as defesas imunológicas são suprimidas durante os estágios iniciais da gravidez (tornando a gestante e o feto em desenvolvimento mais vulneráveis aos custos de adaptação associados à infecção por patógenos). Coincidindo com essa vulnerabilidade natural, as mulheres nos estágios iniciais da gravidez também exibem respostas de repulsa mais fortes a estímulos associados a patógenos.
A aversão é provocada não apenas por objetos que conotam abertamente a presença de patógenos, mas também por formas específicas de comportamento social - incluindo atos sexuais incomuns e ações que violam códigos morais de conduta. Embora existam considerações funcionais específicas para acasalamento e moralidade, tanto os comportamentos sexuais quanto os morais também têm implicações para a transmissão de patógenos. O contato sexual coloca as pessoas em risco de infecção e, por isso, o comportamento sexual tem sido historicamente governado por normas culturais que grosseiramente distinguem atos sexuais seguros dos inseguros.
Consequentemente, como resultado do processo de aprendizado cultural, comportamentos sexuais percebidos como não-normativos dentro de um contexto local podem vir a ser intuitivamente associados ao aumento do risco de infecção. De fato, as violações normativas de todos os tipos podem ter essa conotação intuitiva. Nas sociedades pré-industriais, a maioria das convenções relativas à subsistência e ao comportamento social funcionavam como prescrições para evitar doenças, quase todas as regras tinham implicações para a saúde. Dessa forma, muitas transgressões contra códigos normativos de conduta em muitos outros domínios comportamentais também podem vir a ser intuitivamente associadas ao aumento do risco de infecção. Assim, juntamente com as respostas de nojo a estímulos de conotação patogênica mais óbvia, muitas respostas nos domínios sexual e moral podem ser manifestações indiretas do sistema imunológico comportamental.
Obs.: O último parágrafo pode ter sido bastante polêmico, mas cuidado com a leitura. Existe um abismo entre falar que X causa Y e que X está correlacionado com Y. O frio está correlacionado com a gripe, mas frio não causa a gripe. No caso apresentado no texto, o autor sugere que a aversão a comportamentos sexuais de risco pode ter correlação indireta com sistemas psicológicos de proteção contra infecções. Reparem que é uma comparação distante, não há nenhuma relação causal direta descrita. Ademais, vale lembrar que comportamento sexual é um tema muito extenso, o que limita qualquer exploração mais aprofundada por meio das redes sociais. O objetivo dos textos é apenas apresentar uma perspectiva diferente, entregar algumas referências e, quem sabe, aguçar a curiosidade de vocês. Caso queiram entender com detalhes, o The Handbook of Evolutionary Psychology do David M. Buss possui 200 páginas falando especificamente sobre esse tema.
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